3h – A sede vive num alvoroço, ainda agora está a entrar nova "mão-de-obra" preparada para mais uma noite de trabalho, pior, para a última noite de trabalho. As tarefas dividem-se e o correr avassalador do tempo já não permite perfeição ou uniformidade. Os desenhos, os recortes, as colagens, a pintura são interrompidos por umas cervejas, por umas conversas já sem sentido. Tudo se faz para enganar uns olhos que teimam em piscar e um corpo devastado, a quem se tenta convencer que a maratona ainda agora se inicia.

Esta cena repete-se um pouco por todas as sedes. Se umas são animadas ao vivo por um samba importado, mecânico, sem grandes arritmias, onde ainda esvoaçam plumas que teimam em não se colar ao esplendor, onde parecem sobrar demasiadas lantejoulas multicolores para as exíguas vestes das passitas, outras munem-se de rudimentares aparelhos de som que passam quase religiosamente música brasileira (qual podia ser?), ao ritmo da qual as costureiras dão os últimos ajustes, as agulhas bailam e, inconscientemente, inventam novos pormenores, dá-se mais roda ou ajusta-se, sobe-se o vestido, ainda alguns cortes e já se deturpam as ordens da "chefe".

5h – "Claro" que tudo isto muda quando se entra numa sede só de homens: bem munidos da sua fonte de energia, a qual nunca largam, fazem-se acompanhar de fitas métricas, tesouras, pregos, martelos, do indispensável lápis, e sobretudo das tintas e da cola, que no fim de uma noite contribuem para uma memorável moca. É a sua oportunidade de demonstrarem a veia artística que tanto se cansam de apregoar. Mas depressa começam a confundir as cores dos sapatos do polícia, das letras, e o A que está mal feito, "Quem foi o palhaço que o fez?", e as medidas que não batem certo, e ninguém lhes leva nada para beber e "Já está gente a mais na sede"... assim um Homem não consegue trabalhar. A isto tudo juntam-se forasteiros ou forasteiras curiosas que teimam em não sair dali.

Num verdadeiro depósito de carros alegóricos, elevaram-se curiosas estruturas que levam, agora, os últimos retoques possíveis e que serão o quartel general de cada grupo nas ruas.

E esta versão "não pára" estende-se até perto das 15h, altura em que as ruas estão animadas, os balões dançam no ar, os miúdos deliciam-se com pipocas e algodão doce que enganam o estômago e corroem aqueles dentes já tão mal tratados. Os foguetes ensurdecedores anunciam o fim de meses de trabalho, de ensaios, de noites mal dormidas, de desleixo familiar e profissional e precipitam o início do fim.

Durante cerca de 4 estonteantes horas, à volta de 2 milhares de personagens, muitas vezes irreconhecíveis em todo o caso anónimas, vibram com ritmos tropicais, mas que também contemplam o produto nacional, sobretudo o popular: melodias impregnadas em "Excesso" que só se despem no fim do carnaval.

O desfile alucinante, imbuído pelo espírito etílico, faz confundir cães "marados", ou melhor, malhados, e tristes Pinguins que, por força da dificuldade de deslocação, se deviam juntar a uns enormes soldadinhos de chumbo, (quase) no verdadeiro sentido da palavra. Pelo meio desfilam corpos desnudados, que balanceiam as ancas ao som da "batucada, esse caldo sonoro que se cola a quase todo o corso"(*), numa fraca imitação (mais que não seja pelo frio) ao samba brasileiro. Assim, Maias, Incas sereias, marinheiros, piratas, Índias, africanas festejaram, no que "parecia" aludir a "uma certa" exposição mundial, o calor carioca.

Os elevados decibéis acompanhavam também umas caixinhas surpresa, cujos bonecos saltitantes quase batiam nos invulgares esqueletos, bastante animados e que vieram lá dos lados do mar. Também do mar vieram uns Vampiros surfistas que já nos habituaram a melhor. Quem não pareciam conformados eram uns loucos automobilistas e uns certos polícias que carregaram sobre a multidão, talvez enfeitiçados pelas bruxas d' Arco da Velha.

Apesar de que "no carnaval o imobilismo é a morte e expulsar o sorriso da cara é caminho aberto para o esquecimento"(*), dêmo-lhes a oportunidade de referência, ainda que pela negativa, a uns incompreensíveis e pouco Catitas feirantes, a uma burguesia deslocada e desconsolada, a umas " iguais a si próprias" (poucco) Barulhentas e a uns Pindéricus Não Precisa tanto mau gosto.

Depois? Depois é o fim, ingrato. No opúsculo veem-se corpos maltratados, não anestesiados, que mancam, descalços, tremem de frio e deambulam pelas ruas desertas, abandonadas e sujas. As serpentinas amontoadas, inertes anunciam o final da festa. É tempo de voltar para casa e enfrentar a verdadeira "ressaca" psicológica, o vazio. Guardam-se no velho sótão as roupas de carnaval, deixa-se finalmente o corpo descansar, volta-se a beber água e a comer bem. Mas o nosso ritmo, esse ainda não sossega, sonha ainda com as palmas do público, com aquela tonteira extenuante, com aquele êxtase...

Procuramos em vão pelos nossos pares e nem o centro de culto dos últimos meses parece o mesmo, limpo, arejado, vazio...

Muitas vezes nem nos consola o que sobre o nosso carnaval se escreveu. Perdem-se em considerações formais e racionais, atacando quase exclusivamente a importação do tão citado samba, as "colunas de som, ásperas e intransponíveis como muralhas"(*), ou os grupos que, reconhecidamente, pouco ou nada contribuíram para a qualidade do carnaval de Ovar. Escrever de carnaval pressupõe emoção e nostalgia e a noção que um salto, um sorriso, uma serpentina, o esvoaçar de uma bandeira, umas palmas escondem meses, zangas, "raves", riso, juras e promessas esquecidas, enfim deliciosas loucuras.

(*) in Público de 23 de Fevereiro 1998

  Mariana Palavra / Março 1998

 

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