Os Cépticos do Carnaval
Apesar das dezenas de milhar de visitantes que Ovar recebe todos os anos, não se pode dizer que a população portuguesa seja grande adepta do Carnaval. No entanto, esta festa pagã é, em Ovar, uma época mágica, onde tudo pode acontecer. Até mesmo jovens Portuguesas a dançar na rua, em pleno Inverno, quase nuas, tendo mesmo os pais de algumas delas pago para isso. Mas isto é "má língua".
Em Ovar, ao Carnaval, ninguém consegue ficar indiferente. Mesmo os mais recatados serão obrigados a reparar que o Carnaval chegou. Nem que seja porque o som dos alto-falantes, nas ruas, não pára de gritar samba do tempo das suas avós (felizmente nem todos moramos no centro da cidade). Nem mesmo os mais desatentos conseguirão deixar de reparar nas estranhas roupas que os jovens começam a usar desde o primeiro fim de semana de Janeiro. Mas há sempre quem não entenda."Carnaval é no Brasil, deixem-se de coisas!"
Pois eu digo que os brasileiros têm o Carnaval deles e nós temos o nosso, feito à nossa escala, à nossa medida, sem pretensão a qualquer tipo de comparação. Estamos, e continuaremos, a muitos milhares de contos de distância.
"Então não tentem imitar um Carnaval que vem de outra cultura. Sejam originais."
Ah!... Essa já é uma crítica mais aceitável (apesar de ser conhecido que fomos nós, Portugueses, que enviamos o Carnaval para o Brasil). E aí referem-se às Escolas de Samba. Mas como resistir a importar para uma festa algo que é bonito, colorido, cheio de alegria, de vida, que tem ritmo e que traz uma nova postura e atitude, que mostra trabalho, disciplina, coordenação, que tem músicos e bailarinos, enfim, que é espectáculo?"Mas o Samba não é nosso. Porquê tanta presença e importância naquele que se diz 'o mais Português dos Carnavais'? "
Desse ponto de vista, o futebol também não é nosso, e no entanto, raros são os países que não o adoptaram como desporto nacional. E é fácil encontrar razões que o justifiquem. Em relação ao Samba, é simplesmente o ritmo que melhor se adequa à época Carnavalesca: convida à dança, é alegre, divertido e, acima de tudo, contagiante.
Recordo quando, há quinze anos atrás, o ritmo musical do Corso provinha das bandas de música: ou tocavam velhos sucessos da Tonicha ou, também elas, tocavam Samba, mas com instrumentos de sopro. Era engraçado, mas não possuiam a energia de uma Escola. E a não ser que inventemos um ritmo novo, eu também não estou a imaginar o Fado como fundo de uma festa como a nossa.Existe, no entanto, um ponto em que não posso deixar de concordar com os cépticos do Carnaval, com quem tantas vezes me cruzo: o traje adoptado pelas nossas Escolas. Tanto em Portugal como no Brasil, os festejos Carnavalescos são na mesma época. Só que, enquanto no Brasil é pleno Verão, por cá estamos em pleno Inverno. Isto não é novidade para ninguém. Se o Samba é, sem dúvida o ritmo mais indicado para o Carnaval, quer no Brasil quer, porque não, em Portugal, já não posso dizer o mesmo da roupa das Sambistas de Ovar. Não posso deixar de ficar perplexo quando perante alguns milhares de pessoas, devidamente protegidas do frio que se faz sentir na época, assisto ao desfilar de dezenas de raparigas trajando como se se fizessem sentir os mesmos trinta ou quarenta graus centígrados que, nessa altura, fazem as delícias do povo Brasileiro. Agrada-me um insinuante decote numa roupa feminina, mas se a senhora, apesar do intenso frio, insistir em não apertar o casaco, então o decote passa de sensual a extremamente ridículo. É neste ponto que, julgo, as Escolas deveriam inovar adaptando-se à nossa realidade, ao nosso clima. A Charanguinha já esteve no bom caminho.
Mas as Escolas de Samba são um fenómeno relativamente recente no Carnaval de Ovar e, apesar de terem assumido um certo protagonismo, os Grupos continuam bem vivos.
Todos os anos, quem assiste ao Corso, é presenteado com alegorias extremamente originais e bem dispostas. Todos os anos sabemos que iremos ser surpreendidos pela imaginação, rigor e interpretação de certos Grupos.
Quem não se lembra de maquetes como a do irresistível par dançante Magala-Sopeira dos Pinguins, o hilariante Corpo de Bombeiros Marado, a espectacular Locomotiva dos Vampiros ou o desconcertante Exército Feminino dos Xaxas? Muitos outros tenho a certeza que ficarão, ou já ficaram, gravados para sempre na vossa memória.
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As ideias não se estão a esgotar, o Carnaval não está a morrer. O espaço para desfile é que já está ultrapassado. Duas voltas ao percurso é que não se justificam. Porque não apenas uma volta, mais extensa e percorrida a um ritmo mais lento? E porque não democratizar a votação, imprimindo, no verso dos bilhetes, um boletim de voto que seria depositado pelos espectadores, após cada percurso, em urnas concebidas para o efeito e distribuídas pela cidade?
[ Digo eu... ]